Quem quiser parar pra ver pode até se surpreender:
Vai ler nas folhas do chão, se é outono ou se é verão;
nas ondas soltas do mar, se é hora de navegar;
na cara do lutador, quando está sentindo dor;
vai ler na casa de alguém o gosto que o dono tem;
e no pêlo do cachorro, se é melhor gritar socorro:
e na cinza da fumaça, o tamanho da desgraça;
e no tom que sopra o vento, se corre o barco ou vai lento;
e também na cor da fruta, e no cheiro da comida,
e no ronco do motor, e nos dentes do cavalo,
e na pele da pessoa, e no brilho do sorriso,
vai ler nas nuvens do céu, vai ler na palma da mão,
vai ler até nas estrelas e no som do coração.
Uma arte que dá medo é a de ler um olhar, pois os olhos têm segredos difíceis de decifrar.
(do livro DEZENOVE POEMAS DESENGONÇADOS, São Paulo:Ática,2003)


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